QUE PESO TEM ESSA NOSSA CAIXA PRETA !


Chegar aos 35, 40 anos significa também, para muitas de nós, começar a fazer uma revisão de tudo que vivemos.
Aquelas lembranças que, achávamos, já estavam devidamente seladas e lacradas, no arquivo morto da memória, de uma hora para outra, voltam ao pensamento como se tivessem acontecido ontem.
E como nos surpreendem!
Algumas mulheres voltam a se sentir prisioneiras de sentimentos amargos que julgavam estar esquecidos para sempre.
Esse reviver não aparece do nada, de graça…
Na idade da loba, como chamamos esse chegar perto ou passar pelos 40 anos, é quando o nosso corpo começa a reduzir a produção do estrogênio.
É o anúncio de que o nosso fim como reprodutoras está se aproximando.
Sim, a ciência hoje pode, perfeitamente, prolongar esse período, mas o nosso inconsciente e o nosso corpo não são previamente avisados desses recursos científicos.
Não importa se já temos nossos filhos, crescidos , quase criados, ou, se não os tivemos.
Estamos perto do término de um tempo que, afinal, desde a criação do mundo, foi destinado exclusivamente às mulheres: o de ser mãe, o de dar continuidade à vida.
Esse processo revoluciona nosso comportamento. Nos leva ao passado, nos aponta o presente, nos alegra e nos recorda segredos. Segredos que, muitas vezes, guardamos escondidos na mais profunda das nossas entranhas. Segredos que fizemos questão de apagá-los, por anos a fio, até de nós mesmas.
E cá estamos , nessa altura da vida, sendo descortinadas pelas nossas lembranças, pelos nossos próprios sigilos.
São passagens de nossas vidas que ainda nos enchem de medo, de vergonha, de culpa, de remorsos e arrependimentos.
E eles não aparecem todos de uma só vez.
Nos sobressaltam em pequenas doses, às vezes mais suaves, outras nem tanto.
Revisar o passado com a experiência da maturidade poderia ser mais claro, mais lógico. Mas, na realidade não é bem assim.
Em muitos casos é um exercício sofrido, marcado por dúvidas e mais dúvidas.
Contar para alguém nos alivia?
Será que seremos entendidas ou a rigidez das regras morais ainda nos acorrentam?
Devo ou não me expor?
Afinal já faz tanto tempo que isso aconteceu ! "

Eu, esta médica que dialoga por você, passei por esse questionamento.
Talvez ainda esteja passando por ele.
Mas, há algum tempo decidi que continuar guardando, esconder dos meus amigos, da minha família, principalmente dos meus filhos, não ajudaria em nada. A mim nem a ninguém.
Corro o risco de ser mal interpretada.
Sei disso.
Não há problema algum.
O que vale, para mim, é experimentar mais uma vez . Tentar passar a você que não há traumas que não possam ser suavizados, amenizados, melhor entendidos e o mais importante: que não possam servir de trampolim para alguém que não sabe como se livrar, ou simplesmente conviver, com tantos maus tratos que essas lembranças nos impõem. Do limão, fazer uma limonada.
Por isso continuarei contando a você muito do que já vivi, muito do que tive que enfrentar, não cheia de força e coragem.
Em muitas dessas ocasiões achei que não resistiria, que tinha sido escolhida, por não sei quem, para ser a mais desgraçadas das criaturas.
Hoje, te garanto de alma aberta, que vejo a vida com um outro olhar.
Sei também que devo muito às minhas pacientes.
Nelas pude enxergar o quanto é valioso mudar o conceito, o preconceito, que temos sobre o que vivemos.
A partir de agora, o nome do personagem dessa estória é real.

Estava com 5, 6 anos de idade quando tive uma imensa vontade de ter uma tia como mãe.
Esta minha tia era carinhosa, mas não morava conosco, apenas nos visitava.
Ser filha dela, era um sonho que me ajudava a vencer a vontade de um beijo que não ganhei, de um colo que não tive, de um agrado que sempre faltava quando mais precisava .
Minha mãe me criava, me educava, me instruía mas nada era motivo para fazê-la mudar os planos pessoais.
Ainda era bem pequena quando minha mãe se separou de meu pai . As dificuldades de conciliar o trabalho fora de casa me criar fizeram com que eu fosse para um colégio interno ainda muito nova.
Com cinco anos tive que me adaptar aos hábitos e costumes do Instituto Santo Antônio que ficava no bairro de Laranjeiras, zona sul do Rio de Janeiro, que ficava localizado a duas quadras além da minha casa.
Só podia sair daquele lugar de quinze em quinze dias. Retornava sempre os domingos à tarde quando todas as minhas colegas só chegavam na segunda-feira pela manhã.
Eu precisava voltar mais cedo, minha mãe sempre tinha programas para as tardes e as noites dos domingos, não podia ficar comigo.
Me lembro que me sentia muito triste, angustiada. Sempre chorava ao chegar ao meu dormitório.
Solitária, naquele silêncio, me sentia desprezada.
Por que só eu preciso voltar prá cá antes da hora e minha amigas não? me perguntava sempre
Nunca encontrava a resposta.
Sem ter com quem conversar logo me apeguei a um interlocutor muito meu conhecido: as minhas mãos.
Pousadas sobre meu colo, com as palmas para cima, batíamos longos papos.
Imaginava perguntas e respostas.
Fantasiava as cenas do dia que não precisaria mais voltar para o internato.
Nossas conversas ficaram tão íntimas que nos aliamos fortemente: eu e minhas mãos.
Prometia a elas que um dia mudaria de vida. Olhava fixamente para as palmas que pareciam me dizer:
Não desanime.
Um dia você vencerá.
Foram muitas as vezes em que não conseguia me controlar. Me doía muita essa volta para o colégio depois dos fins de semana, incompletos, em casa.
Nessas tardes, assim que minha mãe se despedia e se distanciava, me agarrava às grades do portão de entrada e gritava, soluçando, que não queria ficar lá.
Meus desabafos duravam até a chegada das inspetoras que me puxavam com força fazendo com que me desgarrasse das grades da entrada do prédio.
Elas me levavam para o quarto.
Fiquei quase dois anos nessa rotina, nesse martírio, nesse colégio.


A SEDUÇÃO

Tinha 7 anos quando minha se casou novamente.
O novo ocupante de nossa casa era um homem 12 anos mais novo que ela.
Não me lembro de ter sentido ciúmes dele, até porque não mudaria nada, não tinha o que perder, não estava acostumada às atenções especiais.
Pouco tempo depois, passei a viver algo estranho que marcou feito brasa meu corpo, minha alma.
Numa tarde minha mãe tinha saído para trabalhar como de hábito e ele, o novo marido, estava sentado na sala de jantar, fazendo um trabalho com papéis, esquadro, régua e nanquim.
Fiquei curiosa.
Me aproximei para ver o que estava desenhando.
Me lembro bem que passei alguns minutos admirando e achando muito bonito o que via. Me recordo também que começou neste momento um tormento que duraria muitos e muitos anos.
Ele se aproveitou da nossa proximidade. Levou os braços para trás da cadeira onde estava sentado e me abraçou. Gostei, claro que sim. Enfim, um carinho.
Sentou-me no colo e não precisou de muito tempo para ele pegar uma das minhas mãos e pousar, sobre ele.
No princípio um susto.
Um fato novo e desconhecido até então.
Uma emoção estranha.
Aquele jogo de sedução aumentava a cada oportunidade.
Minha mãe parecia nada perceber.
Acho mesmo que nunca desconfiou de nada. Não sei se por inteira confiança nele ou se porque a ignorância era mais confortável diante da ameaça de ter que enfrentar uma dura realidade.
Alguns meses depois outra mudança na minha vida.
Outra escola, outro colégio interno.
Meu claustro era nesta época no bairro de Botafogo, também na zona sul do Rio de Janeiro.
No Colégio São Marcelo fiquei até aos oito anos de idade. Mais um período muito difícil da minha infância.
Minha memória guarda com clareza que o internato funcionava na casa onde morou o cientista e pesquisador Oswaldo Cruz. Uma mansão defronte ao colégio estava sendo demolida para a construção do prédio da Sears, a primeira loja de departamentos do Rio.
Gostava de ver como estavam sendo destruídas aquelas paredes, aqueles corredores...
Neste casarão existia uma escada em caracol ligando os três andares.
Era de tijolos pintados de marrom bem escuro.
Subir até o topo, observar aquele tubo vazado e , lá do alto, olhar para o vão que se que estendia até o piso do primeiro andar me estimulava, me amedrontada, me levava a uma sensação que até hoje não consigo explicar bem, mas, que era altamente atrativa.
Me sentia desafiada, gostava daquele enfrentamento.
Desta época, também não posso me esquecer de uma Madre, uma manda-chuva do Colégio São Marcelo. Do alto da sua autoridade me repreendia usando a força.
Apanhava dela.
Foram muitas vezes.
Quando eu reclamava gritando que não tinha o direito de me bater, ela respondia dizendo que tinha ordens da minha casa para agir assim.
Com o passar do tempo fui perdendo a vontade de ir para casa. Não que tivesse deixado de gostar do meu canto, do meu real lugar, mas ficar alí enclausurada naquele espaço, misto de escola e prisão, me livrava de um suplício que já dava os primeiros sinais de inconformismo.
Nesta época ainda era sutil o meu desconforto em ser abusada pelo marido de minha mãe.
Não conseguia ter certeza do que realmente sentia durante essas sessões.
Para mim representavam momentos de afeto, ele preenchia um vazio dentro de mim, mas já começava a ter raiva dele.
A incapacidade de reagir fortalecia a minha vontade de permanecer no internato nos fins de semana.
Sempre que ia em casa, a perseguição dele era implacável.
Não desistia de encontrar oportunidades de ficar só comigo, nem que fosse apenas por alguns minutos.
Estava com NOVE anos quando minha mãe decidiu me tirar do colégio interno.
Passei a estudar, no período da tarde, no Liceu Franco Brasileiro.
Liberdade por um lado, angústia aumentada por outro lado.
Virei presa ainda mais fácil nas garras daquele homem.
Mais tempo em casa, maiores as oportunidades de ser molestada por ele.
Não sei bem se com 10 ou 11 anos meu medo começou a aumentar barbaramente. Medo dele que era infinitamente mais forte que eu.
Pendurado na parede de casa ele deixava um relho, que é uma espécie de régua de madeira com duas tiras de couro, que foi feito por ele especialmente para mim.
Com este relho me ameaçava.
Caso contasse para alguém o que acontecia entre nós dois, apanharia com este amedrontante instrumento.
Não queria mais apanhar.
Não queria sofrer ainda mais.
Com o passar do tempo a relação dele comigo ficava mais intensa. Todos os dias o mesmo inferno.
Minha mãe sempre distante daquela realidade.
Nunca notei nenhum sinal de desconfiança dela.
Nunca estranhou nenhuma atitude do marido comigo.
Não sabia de nada.
Uma vez, uma amiga da família, percebendo que algo estranho se passava entre nós, não resistiu e perguntou a ele o que estava acontecendo.
Ele se empalideceu mas se controlou, não deixou transparecer nenhuma reação, nenhum espanto pela descoberta. Foi firme na resposta.
- "Essa menina é muito curiosa e inteligente, só isso. Não há nada além disso.".
Numa manhã, minha mãe estava no trabalho e eu no período de férias escolares.
Nesse dia ele estava determinado a executar o que há muito tempo planejava e preparava. Me ter por inteiro.
Também deste momento me impedi de guardar os detalhes .
Nesta época minha mãe já tinha engravidado dele e eu tinha uma meia irmã.
Ele esperava que a filha adormecesse durante o dia para chegar no meu quarto. Os abusos ficaram ainda mais frequentes.
Para me seduzir me prometia um apartamento em Ipanema. Se dizia fascinado com o sonho de montar uma casa para mim, morar comigo. De sermos felizes, nós dois.
Bem longe da minha mãe.
- E eu?
-Acreditava nele. Movida não sei por que tipo de sentimento! Como? Diante de toda crueldade do abuso sexual !
Hoje sei que minha crença, meu silêncio, meu segredo, eram as formas que eu mesma usava para me proteger.
-O que poderia acontecer comigo se contasse para a minha mãe? pensava.
-Ela não acreditaria. Acharia que estava fantasiando. Que era fruto do meu ciúme.
Estas seriam as respostas que ouviria.
Não tinha dúvidas.
Se o não falar me protegeu, me engordou na mesma proporção.
Meu peso subiu 25 quilos.
Me tornei uma adolescente gorda.
Comia compulsivamente.
Passei e não dar o menor valor para o meu corpo. Corpo esse que só me dava tristeza, desprazer e raiva, muita raiva.
Afinal, era ele, o meu corpo, o responsável por toda aquela situação que me aterrorizava há anos. Para mim era reconfortante me sentir feia. Era uma forma de me transformar numa mulher não atraente e
livre da sedução dos homens.
Somente aos 16 anos de idade resolvi tomar uma atitude.
Já não suportava aquela situação.
Situação que vivia não por escolha, lógico, mas por determinação e deformação dele e fragilidade minha.
Tive que vencer um grande medo.
Ah! O medo sempre ele… Perseguidor implacável dos inseguros…
Ter medo representava para mim a única forma disponível de me fortalecer para que, um dia, não fosse responsabilizada por uma tragédia familiar.
Minha mãe, sempre tão distante, poderia ficar ainda mais longe de mim caso revelasse a ela o que estava acontecendo comigo e o seu marido.
Me perguntava:
-Entre ele e eu quem ela escolhe ?
-Ele, claro, concluía.
Sempre me respondia assim. Sempre temia que essas frases se tornassem realidade.
Seria mais um fracasso meu.
Estaria, mais uma vez, na contra mão de ter uma mãe que me amasse, que dissesse palavras de amor, que me acariciasse, que me desse um beijo, que me chamasse de bonita, de querida.
Não.
Isso não suportaria de forma alguma.
Já bastava sentir essa falta.
Dar motivos para que minha carência afetiva fosse justificada, verbalizada, tivesse uma razão concreta para continuar não existindo, nunca.
Por tudo isso resolvi que eu encontraria uma chance de dar um basta naquele sofrimento desde que não tivesse a participação de minha mãe.
Já mais fortalecida emocionalmente podia perceber, impiricamente, o que hoje a medicina chama de um "ser maníaco obsessivo".
O marido da minha mãe era um deles.
Passei a ser mais esperta. Quando escutava o barulho da entrada dele pelo portão de casa, corria para o quarto da minha irmã, trancava a porta e a acordava oferecendo a mamadeira que tinha preparado com antecedência.
Ele sempre insistia.
Batia na porta com violência
Comecei a ameaçá-lo dizendo que gritaria se ele continuasse a esmurrar a porta.
Prometia um escândalo se ele a arrombasse.
Mesmo cheia de dúvidas e fragilidades levei meus planos avante. Mas minha culpa ainda me sufocava. Afinal era participante ativa de tudo o que tinha me acontecido. Me sentia profundamente responsável por tantos desacertos.
Com a constância das minhas ameaças ele começou a se afastar.
A cada dia ele insistia menos.
Fui me tornando mais forte. Mais satisfeita comigo mesma. Minha meia irmã passou a ser um escudo de grande valia.
Minha vida começou a ficar mais confortável, apesar de extremamente vigilante.
Estava sempre de olhos e ouvidos bem abertos. Não poderia baixar a guarda jamais se quisesse realmente terminar com aquele inferno.
E naquele momento era tudo o que eu queria.
Ficar bem longe do meu algoz.
Não precisou de muito tempo para ele arranjar uma substituta para o seu mundo de desvios sexuais. Uma namorada foi logo descoberta por minha mãe.
Discussões, brigas, desavenças entre os dois e a separação.
Me senti vitoriosa.
Estava livre mas não conseguia diminuir o tamanho da minha culpa por tudo que tinha passado.
Olhar para minha mãe significava reviver anos da minha infância e da minha adolescência. Mas, nem nesses momentos tive coragem de contar para ela o meu drama.
A desgraça que aquele homem tinha feito na minha vida era ainda uma imensa barreira entre nós.
Mais uma vez preferi o silêncio.
Engoli minhas angústias.
Melhor prá mim, melhor para minha mãe. Eram estas minhas conclusões.
Ainda dentro desse relembrar a vida, já depois dos 30 anos, me vieram à lembrança outros fatos que envolvem abusos sexuais.
Sei perfeitamente que uma empregada da casa me alisava quando ainda era bem pequena.
Me lembrei também de um cabelereiro, amigo da casa, que sob a confiança que conquistou entre meus familiares se aproveitava de mim.
Minha memória gravou nítido que meu sentimento de culpa só aumentava.
Me sentia responsável por aquilo tudo.
- Por que era comigo que isso acontecia? me perguntava.
- Só podia ser por que me expunha. Me mostrava sedutora. Provocava aquelas reações.
Já estava livre do marido da minha mãe quando decidi fazer equitação com um outro amigo da família. Ele, um coronel, era proprietário de uma égua.
Meu instrutor estava com 56 anos. Eu cursava o segundo científico.
Num dos passeios por um maravilhoso campo de equitação ele me ordenou que parasse e que descesse do meu cavalo. Obedeci.
E outra vez o inferno me rondou.
Ele tentou me agarrar.
Senti uma repulsa imensa. Reagi. Disse não. Voltei ao estábulo, fui para casa e nunca mais tive aulas.
Abandonei o exercício que tanto gostava.
Fui forte, sim. Mas ao mesmo tempo me senti responsável, mais uma vez, pelo que me acontecia.
Mas o que posso fazer?
Por que tem que ser comigo?
O que faço para provocar tais reações?
Encontrar essas respostas, naquele momento era impossível.
Para mim era muito mais fácil e confortável acreditar que eu era mesmo anormal. Que em nada me assemelhava às outras meninas ou adolescentes da minha época.
Mais uma vez, o silêncio.
Mais uma vez o fracasso me invadia.
Terminei o segundo grau. Era uma pré-vestibulanda. Sabia como ninguém que queria fazer medicina. Disso nunca tive dúvidas.
No cursinho preparatório, estava com 17 anos. Lá conheci um rapaz dois anos mais velho que eu. No princípio, só mais um colega de turma do Pré Vestibular.
Ele, uma companhia agradável, atraente fisicamente e que namorava uma outra colega.
Num dia ele me escutou dizer, a outros colegas, que a namorada dele era muito feinha.
Imediatamente retrucou:
-Se você emagrecer pode até ser candidata a minha futura namorada.
Um namorado?
Não.
Não me interessava.
Mas fiquei entusiasmada com o incentivo que a frase dele se transformou. Pela primeira vez pensei seriamente em emagrecer.
Comecei a comer menos e a emagrecer com facilidade. Cortei os carboidratos, ESPECIALMENTE OS BISCOITOS.
As diferenças despontavam.
Meu corpo afinava. Me comparava com as outras meninas. Estava ficando bem parecida com elas, adquirindo as medidas semelhantes… O estímulo para reduzir o peso aumentava.
Consegui emagrecer.
Mais magra passei a chamar a atenção dos colegas. Volta e meia uma cantadinha, um elogio…
Mas o estigma do que tinha vivido era mais pesado. Me arrepiava só de pensar em namoro. Ainda me sentia muito anormal. Tinha certeza de que não me casaria, não teria filhos nunca. Era impossível me imaginar formando uma família. Tinha medo do que isso poderia representar.
No ano seguinte já estava na universidade Federal Fluminense, em Niteroi, estado do Rio de Janeiro.
Meu corpo em nada lembrava a adolescente gorda que tinha sido.
Me alegrava a nova silhueta.
Não havia guloseima que me fizesse sair da dieta. Era rígida com esse meu novo comportamento. Ele me recompensava.
O rapaz que tinha me feito a proposta de ser candidata a namorada dele, caso emagrecesse, também passou no mesmo vestibular.
Alguns dias depois do início das aulas nos encontramos no onibus.
Conversamos e marcamos de ir ao cinema.
Encontro acertado.
O filme tinha Burt Lancaster como protagonista. Ele era um trapezista lindíssimo. Numa das cenas, se preparava para se exibir no trapézio e eu de olho na tela.
Antes mesmo do salto mortal do mocinho da estória meu acompanhante me sussurou bem pertinho do ouvido:
- E aí, você quer ser minha namorada?
Não consegui mais reparar em nenhuma das cenas do filme que passava à minha frente. A revolução que acontecia no meu coração era infinitamente mais forte que qualquer imagem que surgisse naquele momento. Não me lembro do roteiro do filme, nem do título sei mais…
Fiquei muita espantada com a proposta, mas era impossível negar a emoção que me invadiu naquele instante.
Era a possibilidade de ter uma companhia para outros filmes, passear pelas ruas de mãos dadas… Tudo o que via acontecer com minhas amigas estava bem alí, perto de mim.
Poderia ser como elas.
Ter um namorado.
Aceitei o pedido.
Namoramos durante seis anos.
No nosso primeiro encontro mais íntimo ele me perguntou se eu era virgem. Menti. Não tive coragem de revelar nada sobre minha tumultuada vida, meu grande e doloroso calvário, meu segredo guardado a sete chaves no cofre lacrado da minha memória.
Depois de ter afirmado que era virgem ele nada disse. Ficou quieto.
Tempos mais tarde engravidei.
Outro medo. Nova insegurança.
Assim que recebemos o resultado do exame de urina ele decidiu que eu abortaria.
Aceitei a decisão dele.
Me convenceu de que não poderíamos ter um filho naquele momento. Éramos estudantes, não tínhamos renda. Isso sem contar a decepção de nossos pais. Eu solteira e grávida.
Outra vez me senti um bicho acoado.
Sem defesa.
À mercê das decisões alheias.
Numa conversa com um professor da universidade ele conseguiu o nome de uma enfermeira que poderia fazer o meu aborto. Concordei imediatamente.
Outra má lembrança que fingi apaguei por muitos anos.
O namoro continuou.
Nos formamos e nove meses depois nos casamos.
A prioridade era a minha carreira, nada de filhos no início do casamento.
Só três anos depois nasceu meu primeiro menino.
À partir daí foi uma gravidez atrás da outra. De julho de 1971 a janeiro de 1976 tive quatro filhos.
No meu segundo parto chegou uma linda menina. Quando completou dois meses de idade a vida me pôs, novamente à prova.
Meu bebê, dormia no quarto ao lado do nosso.
Numa noite ela começou a chorar. Meu marido e eu, médicos, achamos que ela estava com cólica.
Eu a virei de bruços, acalentei, minha menina continuou a chorar por uns minutos, mas, depois calou-se.
Dormiu.
Se manteve silenciosa durante toda a noite.
Na manhã seguinte, assim que acordei fui vê-la.
Me desesperei.
Nos desesperamos, meu marido e eu.
Nossa filha estava morta.
Tinha sido vítima do mal do berço. Uma parada respiratória ou um possível sufocamento a tinham feito perder a vida e bem alí, ao meu lado.
Ao lado da mãe.
Ao lado da médica.
Ao lado do pai.
Ao lado do médico.
A culpa recaiu toda sobre mim. Eu me culpei pela morte da minha filha.
Mais um período de dores, sofrimento e terror. Precisei tomar sedativos que em nada anestesiavam minha alma.
A dor de perder um filho só quem já passou por isso tem e conhece sua dimensão e sua intensidade.
É impossível descrevê-la.
Ainda muita marcada e sofrida fiquei grávida pela terceira vez. Chegou o segundo menino.
Seis meses depois deste nascimento engravidei do terceiro menino.
Os três saudáveis e lindos me deram força para continuar vivendo e vencer o que a vida me impunha.
Desde a morte de minha filha meu relacionamento com o meu marido não foi mais o mesmo.
A cada dia mais distancia, mais frieza, menos sentimentos amorosos, mais quebras de cumplicidade.
Cheguei a ficar pasma quando numa dessas discussões, aos gritos, ele disparou a pior e mais cruel das frases que poderia entrar pelos meus ouvidos:
"Você mentiu para mm.
Quando a conheci você não era mais virgem. Sabe Deus o que você já fez na vida".
Uma torrente de ódio me invadiu.
Tinha me casado com um bruto.
Num belo dia descobri que também tinha sido enganada e iludida pelo meu marido.
Numa combinação, entre ele e a obstetra que me atendeu no último parto, tinha sido submetida a uma ligadura.
Resolveram e me pressionaram. Me senti contra a parede.
Meu marido decidiu.
Acertou com a médica.
E eu tive as trompas ligadas.
Me senti mutilada e grandemente traída.
Anos mais tarde, no divã do psicanalista, cheguei à conclusão de que o corte das trompas foi o corte definitivo do casamento, o que explicou a enorme rejeição que desenvolvi por meu marido.
-Como poderia continuar a viver com um homem que era capaz de armadilhas como essa?
Nunca mais poderia confiar nele.
Não poderia continuar a viver com ele.
Depois de uma série crise, muita briga e bate bocas intermináveis decidi pedir a separação.
Ele aceitou.
Passei, então, a receber dele uma pensão que era suficiente para pagar a escola de apenas dois, dos três meninos. Esse valor era depositado na minha conta bancária, por isso ainda tinha que pagar o imposto de renda deste valor, o que reduzia ainda mais a quantia recebida.
Quanto percebi o que estava acontecendo sugeri a ele, com a delicadeza dos pedintes, que pagasse as mensalidades diretamente na escola; que evitasse os depósitos bancários.
Neste momento, escutei dele uma das frases mais duras que uma mulher, destruída emocionalmente, poderia ouvir num momento como aquele:
-Vá para a justiça e procure pelos seus direitos.
Começou aí um período de reuniões com advogados, audiências, terapias, as crianças em crises emocionais, eu me transformando num trapo e tendo que enfrentar uma separação que estava tendo um final desastroso e altamente traídor.
Me sentia esmigalhada, mas, olhar para os meus meninos me reanimava. Precisava fazer o possível e o impossível por eles. Seria mãe como nunca e pai como nunca, todas as vezes que meus filhos precisassem. Nada nem ninguém me tiraria a força que eles, inconscientemente e ingenuamente, me passavam.
Meus filhos me fizeram ressurgir das cinzas, sair de grandes depressões, me empurraram para o enxugar das lágrimas, para o lavar o rosto e reagir.
Não foram poucas as vezes em que um simples olhar de um deles explodia em mim como enormes raios cujas luzes, muito brilhantes, me impulsionavam, me faziam enxergar mais claramente, mais à distancia, e, me transformavam numa leoa, forte e valente como a fera se mostra ao proteger seus filhotes.
Passei por todas as dificuldades que uma mulher em fase de separação pode passar. Novas ações e processos surgiam a cada negativa dele em pagar a escola, o dentista, enfim as despesas dos filhos.
Numa tarde uma amiga me disse:
-"Por que você não troca de advogados? Tente continuar a ação de divórcio com uma advogada. Os homens são coniventes entre eles. As mulheres estão aprendendo a se aliar ao invés de competirem entre elas".
No princípio achei absurda a conclusão desta amiga. Mas, logo depois achei que ela tinha razão. Precisava contar com alguém que entendesse o meu pleito. Queria que o estudo dos meus filhos fosse assumido pelo pai. Para mim não estava pedindo nada, mesmo tendo as garantias da lei.
Enquanto isso os advogados dele exigiram o meu passaporte. Alegaram que eu viajava muito.
Não suportava mais tanta pressão.
Depois de muito desgaste uma juíza conseguiu que ele aceitasse e cumprisse a obrigação de pagar escolas e dentistas.
Hoje meus filhos tem 28, 25 e 24 anos e uma relação recheada de conflitos e desconfianças com o pai.
Tudo isso me deixa profundamente triste.
Queria que exercessem a relação pai e filhos na sua plenitude.
Que se amassem sem barreiras, sem medos.
Ainda não pude vê-los como gostaria. Quem sabe um dia eles ainda se acertam e descubram o trilho do paz.
Com o meu ex marido nunca mais dialoguei. Ainda é impossível aceitar a idéia de uma troca de idéias sem ódios, sem raivas, sem ressentimentos.
Se foi fácil criar meus filhos sem a presença do pai e por muitas vezes, distantes da mãe?
-Lógico que não.
Quantas de nós passamos por isso ou ainda estamos tendo que enfrentar verdadeiras montanhas de problemas para levar avante a criação dos filhos.
A sensação que tenho é que muitas vezes nos achamos diferentes nas emoções.
Eles, os homens, parecem mais frios, mais calculistas. Demonstram menos a dor da distancia das crianças, conseguem trabalhar e levar a vida com mais facilidade e muitos deles só se consideram pais enquanto dormem com a mãe. AS MULHERES INVESTEM NO CASAMENTO, OS HOMENS EM SUAS CARREIRAS.
Conosco, as mulheres, não é assim.
O desenrolar do processo de uma separação é doloroso ao extremo. Mesmo quando nós propomos a separação, quando nós pedimos ao marido que nos abandone, a dor que nos invade é muito grande e profunda.
É sempre um fracasso.
É sempre mais um sonho que não deu certo.
É sempre mais uma sensação de não termos sido capazes de dar continuidade a um projeto de vida e de amor.
E mais:
-Quantos homens você conhece que na separação assumiram a educação dos filhos de forma integral?
Morando na mesma casa que eles?.
Cuidando da escola, da saúde, do afeto, da empregada?
Garanto que os homens que você conhece , aqueles que exercem a paternidade integral, não passam do terceiro ou quarto dedo da mão.
São tão raros que podem ser contados.
-E por que isso acontece?
Muito por formação nossa.
É dificílimo uma mulher abrir mão da guarda dos filhos depois de uma separação.
É uma postura inquestionável.
Mulher, mãe, cuida da cria.
É debaixo das asas que a galinha protege seus pintinhos.
É a fêmea que educa, que trata na doença, que vai a reunião na escola, que manda escovar os dentes antes de dormir, que canta para ninar.
- E por que é sempre assim?
- Porque não sabemos fazer diferente.
Pouquíssimas são as mulheres que numa separação vão à luta e deixam ao pai a tarefa da educação, do dia a dia. Entre elas, muitas contribuem com as despesas das crianças e da casa , visitam os filhos nos fins de semana e conseguem manter uma relação equilibrada…
Mas isso é outro fato raro.
O número é quase nada se comparado ao das mulheres que assumem toda a responsabilidade do criar depois de uma separação.
Ainda vamos precisar de muito tempo e muita experiência para termos a frieza de concluir que em muitos casos, o homem está mais preparado e mais disponível para arcar com a continuidade de levar nossos filhos a virarem homens e mulheres feitos.
Ainda nos falta tempo e grandes mudanças em nossos comportamentos para que possamos considerar normal deixarmos as crianças com o pai depois de um divórcio.
Afinal somos as parideiras e assim já diz o ditado:
"Quem pariu Mateus que o embale"
E em nome de uma tradição, de uma cultura, de um amor intenso, passamos a acumular tarefas e compromissos que talvez sejam grandes demais. Afinal não temos as costas tão largas assim, concorda?
Mas somos mulheres e não podemos abrir mão do que consideramos direitos e deveres nossos.
Mesmo que nessa avaliação entre uma parcela grande de egoísmo e demonstração de força não temos dúvida ao afirmar que:
-Filho, fica comigo e ponto final. Jamais deixarei meu ex marido ficar com ele.
Somos assim. E a cada dia mais mulheres levam adiante a criação dos filhos sem uma participação maior dos pais. Existem aquelas que reagem diferente.
Tenho uma amiga que consegue arrastar um casamento capenga, há 35 anos, porque quando o marido diz que quer se separar ela ameaça:
- "se divorciarmos eu vou embora. Você assume os filhos e a casa".
Ele, imediatamente volta a trás e mantêm o inferno dessa convivência.

Os números nos mostram que, hoje no Brasil, 36 por cento das famílias são chefiadas por mulheres.
Não é tarefa fácil.
Todas sabemos disso.
Mas, o tamanho do orgulho é infinito.
Reconhecer o quanto somos importantes é sensação que mãe nenhuma pretende deixar de ter nem que para isso precise pagar um alto preço.
Muitas dessas conseqüências aparecem depois dos 40, 45 anos.
É quando entramos na fase do "balanço da vida".
É quando nos alegramos ou nos entristecemos diante das conquistas ou das dúvidas que nunca foram resolvidas
É quando nos perguntamos sobre o acerto ou não de decisões tomadas há 20, 25 anos.
É quando relembramos amores e decepções… sonhos e tormentos.
Revivê-los faz parte da vida de todas nós.
Quase nenhuma mulher está livre desse pensar e repensar …
Avaliar o passado, nos impõem penas, mas podem nos absolver.
Nada melhor, nesse período, que uma boa terapia e a fé. O acompanhamento de um profissional é de fundamental importância nesse momento.
Este tempo não pode se transformar em punição. Muitas vezes ele leva a graves depressões, a desajustes de comportamento, a mau humor constante e a dificuldades de relacionamento com os filhos, com o companheiro, com os colegas de trabalho.
Em muitos hospitais públicos já é possível encontrar um departamento de apoio emocional.
Não tenha medo de procurar por um.
Você não está enlouquecendo, pelo contrário, é sinal de lucidez.
Você está tentando se reequilibrar de um mal que ataca a todas nós.
Você não é a única.
Não deixe que isso se transforme em doença.
Conte sim seus segredos a quem pode ajudar.
Com certeza você passará a encará- los de uma forma bem mais suave.
Ninguém achará que você perdeu a razão porque procurou um psicólogo, um psicanalista ou até um psiquiatra.
Em pouco tempo você passará a perceber que terapia existe para nos ajudar a vencer traumas que nos aprisionam e nos maltratam.
Torná-los menos importantes, mais resolvidos, está ao nosso alcance.
Então por que não nos darmos mais esse presente?
Você merece, e muito, dormir em paz com suas emoções.

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