ESTAMOS BEM PRÓXIMOS DE ALIANÇAS QUE PODEM NOS MATAR…

Janeiro de 1991. Estados Unidos.
Estava em plena crise conjugal. O meu segundo casamento estava no fim. Tempos difíceis para quem pensou, como eu, ter encontrado desta vez o companheiro ideal, o amor da minha vida.
Tinha sido um maravilhoso romance que começou no verão de 89, em Nova York.

O forte calor me levava com frequência a sentar num bar, depois de um dia inteiro de estudos e pesquisas nas universidades americanas. Lá sempre pedia uma taça de vinho branco com água mineral gelada. Costume americano de saborear um vinho que passei a gostar.
Num destes fins de tarde, no dia 26 de julho de 89, estava só, num bar muito simpático em Riverdale, bairro ao norte do Bronx, um dos preferidos pelos judeus que o elegeram como moradia há mais de 50 anos.

Gostava de fumar enquanto saboreava meu drink. Neste dia não tinha isqueiro nem fósforos. Assim que tirei o cigarro do maço, apareceu uma chama. Pelo espelho, que decorava o bar e ficava bem à minha frente, pude ver a fisionomia de um homem bonito e meus ouvidos escutaram uma voz extremamente sedutora:
- May I light your cigarrete? - Posso acender o seu cigarro?
O homem que me trouxe o isqueiro, acendeu o meu cigarro e disparou em mim uma outra chama: a da atração.

Começamos a conversar.
Ele queria saber de onde eu tinha vindo, já que as pessoas que freqüentavam esse bar se conheciam, eram moradores da redondeza.
Assim que soube que era brasileira me fez sentir ainda mais encantada…
Ele sabia detalhes sobre a obra de Tom Jobim, Djavan, Gonzaguinha e outros tantos da nossa música popular. Conhecia e adorava o nosso ritmo.
Horas depois se ofereceu para me levar em casa. Estava hospedada a umas cinco quadras dali.
Na despedida levou o número do meu telefone.

Na manhã seguinte, às nove horas, o telefone tocou. Era ele, me convidando para almoçar.
Nosso primeiro almoço foi num restaurante que ficava entre as ruas 30 e 31, em Manhattan.
Ele sempre gentil e carinhoso.
Marcamos novo encontro, desta vez para jantar no La Pietra, um restaurante italiano muito agradável.
Pela minha cabeça já passava aquele filminho, tão conhecido de todas nós…

- Daqui a três dias vou voltar para o Brasil e vou deixar aqui este designer de interiores tão interessante!
Mas, não tinha outra alternativa. Trabalho, casa e filhos esperavam por mim.
Nos despedimos no aeroporto com uma imensa dúvida: será que acabou?
Embarquei.
Cinco dias depois recebi a primeira carta dele.
Nela a confissão: quero continuar a te ver.
Depois de dezenas de cartas e telefonemas ele desembarcou no Rio, era Sete de setembro.
Se hospedou num hotel, o Buscky Mar em Niterói, bem perto da minha casa.
Foi uma semana intensa em juras de amor, paixões e promessas.
Me atraíam muito os olhos dele, tinham um certo ar suplicante.

Ele voltou para os Estados Unidos, mas não havia semana que não chegasse uma carta de amor. Recebê-las me deixava emocionada, espantada com o que estava acontecendo comigo.
Chegava a tremer, tinha calafrios ao abri-las.
Naquele tempo meu inglês ainda não era suficiente para entender tudo que escrevia.
O dicionário passou a ser meu fiel escudeiro. Não queria perder nada, não queria deixar de entender uma só sílaba.
Num belo dia, numa correspondência, um pacote. Desta vez não foi o já conhecido envelope.
Me desfiz da embalagem rapidamente.
Era uma fita gravada entitulada - "Só para os olhos de Odilza".
Corri ao vídeo cassete.
Eram imagens dele pelas ruas onde tínhamos namorado e feito muitas, muitas declarações de amor.
Isso nunca tinha me acontecido…
Quanta emoção.
Quanto carinho.
Em outubro ele me convidou para passar o Natal e o Ano Novo em Nova York.
Difícil decisão. Meu coração se dividiu. Seria a primeira vez que passaria estas datas longe dos meus filhos.

Achei melhor conversar com eles. Falei da minha nova paixão, contei sobre emoções e para minha surpresa eles me deram a maior força.
- "Vá mãe, ficamos com a vovó"- disseram.
Minha mãe, que me conhece como ninguém, se adiantou: - "Se você for morar em Nova York quem vai cuidar de mim? choramingou. O conselho familiar composto pelos meus três filhos me incentivou para a viagem.
Marquei passagens, fiz as malas.
Quando desembarquei lá estava à minha espera, ele, mais lindo que nunca. Embarcamos numa limousine preta recheada de flores e champagne.
Pompas e honras para uma mulher apaixonada.
Me senti nas nuvens. Não poderia haver amor maior que aquele.
Na noite do dia 24 de dezembro comemorações familiares.
Ele me apresentou à mãe e ao irmão.
Mesmo diante de tantas homenagens não conseguia me desvencilhar do remorso de ter deixado meus filhos no Brasil. Uma enorme culpa.
Tal sentimento me lembrou até de uma passagem bíblica: - "Adão, comeste do fruto do bem e do mal? Perguntou o Senhor.
- Não Senhor. Foi a mulher que me induziu…"

Nós. Sempre nós, mulheres, as culpadas. Carregamos a culpa da própria existência.
Tentei me enganar. Fingi que isso não me incomodaria mais.
Nada poderia estragar as idas ao teatro, os jantares, os passeios pelos parques… enfim, a cidade e suas maçãs, a Big Apple, ali, a ornarem uma nova vida, que sabia, me esperava.
Dois dias após o Natal, me preparava para dormir, quando escutei:
- Quer se casar comigo?
Minha cabeça rodopiou.
Um misto de emoções, responsabilidades, comprometimentos bailavam descompassados pela minha mente.
No meio desta miscelânea de pensamentos me lembrei que, quando ele dormia, roncava e dava uns pequenos sobressaltos na cama, próprios de quem tem sono irrequieto…

Minha memória me trouxe de volta até a estória da Dona Baratinha.
Parecia ouvir minha mãe ler, no meu livro infantil preferido, o trecho onde Dona Baratinha pergunta aos bichos, que querem se casar com ela, que barulho fazem quando dormem.
Um dos quesitos, considerados por ela, para escolher com qual deles se casaria.
Aceitei o pedido mesmo com todo aquele ronco.
Cinco dias depois compramos o anel de noivado. Anel que prá mim tinha um enorme significado.
Durante toda a minha vida busquei uma família que considerava normal: o homem, a mulher, os filhos reunidos à mesa de almoço no domingo. Era o que queria, sem dúvida.
Ele me libertava de um tempo que queria esquecer.
Tempo que mais adiante, contarei a você.
Naquele momento estava vivendo um romance, uma estória de fantasia amorosa de verdade, com tudo a que tem direito. Não poderia perder essa chance.
Não queria deixar me influenciar por uma frase que me foi dita pela mãe de uma amiga americana, quando contei a ela que iria me casar com ele.
Depois de pensar alguns minutos ela disparou:
-Odilza, não se case com esse rapaz. Não o conheço. Parece loucura minha, mas é uma forte intuição.
-Não, disse a mim mesma.
Nada atrapalharia essa estória de amor.

Nos primeiros dias de janeiro voltei ao Brasil.
No meu quarto, sob uma mesa onde tinha colocado vários cristais, juntei os dois mapas astrais que tinha mandado fazer: o meu e o dele.
Junto com os mapas a astróloga me entregou uma fita gravada.
Escutei e fiquei intrigada.
Nela, a astróloga me dizia que os astros indicavam surpresas, em um casamento, por conta de mentiras e muitas decepções.
Imediatamente pensei na frase da mãe da minha amiga americana.
Bastaram alguns segundos para me sentir meio boba, afinal estava vivendo um romance e tanto… e ele, em nada, aparentava outras intenções a não ser a de viver todo o sentimento que demonstrava sentir por mim.
Não resisti à distancia.
Um mês e pouco depois fui reencontrá-lo.

Meu filho do meio, estava na Califórnia. Tinha ido estudar inglês e se hospedado na casa da minha irmã que morava lá.
Levei comigo meu caçula, então com 13 anos. Logo, logo, o do meio se juntou a nós.
Foi uma festa.
Eles gostaram do meu novo parceiro e dos muitos cheesburgers com batatas fritas oferecidos por ele.
Eu, a cada dia, mais apaixonada.
Marcamos o casamento para julho daquele mesmo ano. Ele solteiro e eu divorciada. Não teríamos problemas legais.
Me lembro bem de uma amiga jornalista que me levou a sua casa e me disse:
- Odilza, você tem certeza de que é isto mesmo que você quer para a sua vida?
- É. falei sem dúvida.
Três meses antes da cerimônia ele veio ao Brasil por uma semana.
Comecei aí a perceber alguma diferença.
Reparei que ele era bastante genioso, temperamental.
Será que estou exagerando?
É loucura minha me assustar com algumas reações quase explosivas?
Um certo medo apareceu e disparei a me fazer muitas perguntas.
Devo ou não me casar?
Vale a pena?
Insisto ou desisto?
Foram questões que me perseguiram dia e noite. Uma montanha de dúvidas me assolou.
Corri mais uma vez para a minha terapeuta.
Mas, já estava tudo pronto para o casamento.
Além do mais ele prometeu me assumir financeiramente durante o tempo que teria que estudar para ser aprovada no USMLE - United States Medical Legal Examination - o certificado que permite exercer a medicina em território americano.
Era tudo o que eu queria profissionalmente.
Fui em frente. Nada de pessimismo, me decretei.

Foi uma festa bonita. No Clube dos ingleses de Niterói - o Rio Cricket - cerimônia civil, jantar para muitos convidados e o meu vestido lilás.
Quantos sonhos!!!
Três dias depois fomos todos para Nova York, ele, minha sogra e um amigo americano que foi nosso padrinho.
Atrás de mim deixei uma carreira promissora.
Nosso apartamento tinha sido montado por ele, em Riverdale, o mesmo bairro onde nos conhecemos.
Nos instalamos e logo comecei um curso aprofundado de inglês para enfrentar sem problemas o exame do USMLE.
Como prometido ele pagava o curso.
E eu, passei a ter uma vida bastante simples.
Me transportava de trem, nas refeições, comida a quilo… Precisava me sustentar com os 50 dólares que ele me dava por semana.
O que recebia, aqui no Brasil, era o necessário para o sustento dos meus filhos que estavam morando com minha mãe. O mais velho preferiu ficar com o pai, mas mesmo assim eu mantinha financeiramente todos os gastos extras.
Com o passar do tempo percebi que precisava me preparar ainda mais. Necessitava, e muito, rever as matérias médicas tanto as básicas quanto as clínicas.
Fui até o Curso Kaplan, preparatório para o USMLE.
Seriam três anos de estudos diários e oito mil dólares. Deste total, dois mil dólares de depósito e o restante parcelado em três anos.
Cheguei em casa entusiasmada.

Depois deste curso seria aprovada sem problemas. Teria o meu diploma reconhecido nos Estados Unidos e um futuro inimaginável me esperava.
Durou muito pouco a minha alegria.
Quando contei ao meu marido sobre meus planos escutei, imediatamente.
- Não tenho condições de pagar isto.
Tentei argumentar, relembrei a promessa a mim feita, perguntei se havia acontecido algum imprevisto na vida financeira dele.
Não recebi nenhuma resposta que me convencesse.
Me senti traída.
Arrumei minha mala e vim para o Brasil passar o Natal.
Aqui, decidi aproveitar uma mudança na lei que favorecia a contagem do meu tempo de serviço no INAMPS - depois INSS e SUS. Era a oportunidade de me aposentar.
A insegurança foi o estímulo que precisava para organizar toda a documentação necessária.
Meu marido, no mais absoluto silêncio. Nem um telefonema. Nem um bilhete.
Quando eu ligava falávamos sobre amenidades, nada com relação às nossas vidas, dinheiro ou cursos.
No início de janeiro de 1991 voltei para a minha casa americana.
Fui reencontrar meu marido.
Reassumir minha vida.
Tentar recomeçar.
Minha cabeça estava à mil.
Não precisou muito para perceber que tudo estava no fim.

O casamento, claro, não era mais o mesmo. Os diálogos ficando escassos, o sentimento se desgastando, a sensação de mais um fracasso me dominando.
Não suportava mais aquela situação. Ao mesmo tempo não tinha forças para abandonar meu marido, me separar pela segunda vez.
Seria a minha auto definição confirmada.
- Você é mesmo uma incompetente.

Acordar, sair de casa, voltar, encontra-lo, dormir ao lado dele ou não… ter que suportá-lo…
A rotina me estraçalhava.
- Não quero isso", me dizia sem parar.
Mas qual a saída?
Não enxergava nada.
Tudo era infinitamente distante e inatingível.
Ah! Sim. Uma alternativa estava bem ali, pertinho de mm. E foi a ela que me agarrei.
Passei a esperar pelos fins das tardes, com ansiedade e uma imensa vontade de adiantar os ponteiros do relógio para que logo atingissem as seis horas. Me encontraria com ele, noutra situação.
À tardinha no bar, era a hora que após alguns drinks ele ficava mais descontraído e silabava algumas palavras comigo.
Todos os dias a mesma coisa.
Eram dois, três Dry Martini. Eu e ele.
Encontrar os amigos no bar fazia parte de um antigo hábito dele. Lembram-se de que o conheci nesse mesmo bar?
Naquele ambiente ele se comportava como o homem de antes.
Me sentia amada, compreendida.
Era como se nada estivesse acontecendo conosco.
Conversávamos sobre o nada, até ríamos de bobagens que não tinham a menor graça.
Ali conciliava o que precisava: eu, ele e a companhia agradável e anestesiante do Dry Martini.
Me aliei ao copo como a única válvula de escape à mão, afinal nele me sentia mais relaxada.
Era o tempo do meu alívio.
Entrava no bar, todos os finais de tarde, e deixava na rua todos os meus medos, minhas frustrações, minhas inseguranças.
Que bom que existia um lugar assim. Que fuga maravilhosa ele passou a representar para mim.
Depois do terceiro copo falava o inglês com mais facilidade, me esforçava e conseguia ser alegre.
No dia seguinte, logo pela manhã, lá estava ela: a depressão.
Era um círculo vicioso.
Assim passava meus dias, minhas horas de angústia. Me enganava. Aumentava meu sofrimento. Afinal sabia exatamente do que estava fazendo comigo.
Não era nenhuma ignorante para ter a exata consciência de que estava seguindo o caminho errado da solução dos problemas que me assolavam. Mas o engano próprio era o mais fácil dos trilhos naquele momento.
Evitava pensar na realidade, na distancia dos filhos, no abandono da minha carreira, na entrega a um amor que não podia me permitir.
Queria me iludir.
O real me arrasava.
Não tinha forças contra ele.
Permiti que o falso tomasse conta de mim.
Era muito mais fácil.
Contudo, não pude deixar de notar que os embotamentos me assumiam a cada dia com mais vigor.
Comecei a esquecer nomes simples, corriqueiros. Num dia queria falar com alguém sobre a luz que ficava na minha cabeceira e não conseguia me lembrar do nome dessa luzinha.
Me esquecer de nomes como o do abatjour, por exemplo, passaram a ser constantes.
Queria contar um caso, ou um fato, a alguém e me esquecia dos nomes dos personagens, da continuidade da estória. Não saber expressões e palavras me constrangiam, mas sempre levava na brincadeira.
-"Que memória, a minha", dizia, como se nada de anormal estivesse me acontecendo.
E o tempo foi passando... e a rotina do bar, a depressão aumentando.
A situação financeira dele só piorava. O negócio de decoração de interiores passou a não pagar nem as despesas da empresa. O sócio desistiu.
Os rompimentos dos contratos de trabalho aumentaram e fizeram com que ele fosse obrigado a sair de Manhattan. Encontrar outros filões, nem sempre tão rentáveis. ERA A RECESSÃO.
Numa nova empreitada passou a ser chefiado por um mulher com quem ele brigava todos os dias.
Era muito difícil para ele arranjar um outro trabalho, outra atividade.
O significado do "my job", meu trabalho, para o americano é muito forte, infinitamente maior que para nós brasileiros.
Passei a conviver com calotes financeiros, inimizades, mentiras e muitas tentativas de estar sendo enganada. Ele não mediu esforços para contar com o meu dinheiro na busca pela recuperação financeira dele.
Tudo me levava a angústias cada vez maiores.
Em junho de 1991 precisei vir ao Brasil para prosseguir no andamento da papelada para que conseguisse, em definitivo, a minha aposentadoria.
Nesta época passei a conviver com pequenas hemorragias. Durante quase todo o mês sangrava. Era uma secreção que tinha cor de água de carne.
Decidi então finalizar o que tinham feito em mim, como você vai ficar sabendo nas próximas páginas.
A ligadura de trompas, afinal, ia ser vingada.
Resolvi fazer a histerectomia total - a retirada do aparelho reprodutor.
Era o meu único caminho.
Afinal filhos têm que ser do mesmo pai e da mesma mãe. Era o que pensava naquele momento.
Aqui, na minha terra, longe dele, fui pega, sem resistência, pela depressão.
Depressão que mais que nunca estava presente nos meus dias.
Depois de quase um ano encontrei minha ex cabeleireira que, se deparando com o meu sofrimento, me levou a um culto de uma certa Igreja Evangélica.
Fui apresentada a uma pastora que, depois de uma longa conversa, me revelou:
- "Existem "trabalhos" feitos para ti, feitos por alguém que te quer muito mal. Não só a ti, mas a teus filhos também".
Fiquei desorientada.
Não tinha a menor condição de reagir de outra forma.
Assustada aceitei o que me foi proposto.
Com a ajuda de um casal de irmãos da Igreja e da pastora partimos para Salvador, na Bahia.
Lá estaria o trabalho que precisava ser desfeito.
A viagem foi de ônibus.
Uma distância difícil de ser vencida. Mas, naquele momento, a única coisa que queria era chegar em terras baianas e acabar com aquilo que estava atrasando minha vida, me levando para muito perto do caos.
Desembarcamos às seis horas da tarde.
Uma hora depois já estávamos nos dirigindo à Lagoa do Abaeté.
Assim que chegamos, após uma concentração de alguns minutos, a pastora decidiu: apontou para a areia, numa certa direção, e nos encaminhamos para o rumo indicado.
Chegamos ao ponto e paramos.
Ali estaria enterrado o que de mau foi feito para mim e meus filhos.
Nos colocamos a cavar a areia muito úmida. O nível de água tinha baixado.
Algum tempo depois, que não consigo precisar bem, encontramos um embrulho, o conteúdo estava enrolado num plástico preto.
Abrimos.
Dentro, uma imensa folha de papel pardo com os dizeres:
"É para Odilza"
E mais: o papel envolvia bonecas sem cabeça, com o corpo espetados por vários alfinetes e um pedaço de uma antiga roupa minha.
Na hora me lembrei dela.
Não havia como errar.
Tinha pertencido sim, ao meu guarda-roupas.
Diante da minha perplexidade caí de joelhos, em pranto, agradecendo a Deus a oportunidade de encontrar e destruir o substrato da maldade a mim dirigida.
Queimamos tudo o que foi encontrado.
Chorava, convulsivamente, sem parar.
Era demais para mim.
Nunca imaginei passar por isso.
Estórias assim, só conhecia de ouvir alguém contar e sempre as escutava com muita desconfiança. E neste momento era eu quem estava vivendo um episódio quase irreal para os meus princípios.
Contudo, consegui me controlar depois de algumas horas.
Não sei exatamente por quanto tempo ficamos ali, ajoelhados, orando. Para mim pareceu uma eternidade.
Nas orações, me recordo bem, de que pedimos a proteção de Deus. Só ele poderia livrar minha família e eu de tantos males.
Não via outra saída.
Era o único consolo que podia perceber.
Sabia que durante toda a minha vida, fazia parte dos meus hábitos diários, pedir luz e paz de espírito ao Ser Superior. Para mim , Jesus Cristo.
E como poderia estar presenciando aquilo tudo?
Minha cabeça parecia estar num grande e confuso nó.
Voltamos para o Rio, logo no dia seguinte.
Outra viagem de ônibus.
Outra distância a vencer.
Outro desafio a decifrar.
Alguns dias depois, e não me peçam para explicar o porquê, passei a encontrar a paz. Uma intensa Paz.
Sabedora dos métodos científicos e médicos para me desvencilhar daquele maldito vício de beber, me descobri mais forte na fé para executar, na prática, o que meus conhecimentos me ditavam e que até aquele momento, me achava incapacitada de seguí-los.
Comecei a me policiar.
Passei a aumentar, lentamente, o tempo longe daquele refúgio traiçoeiro e desgraçado.
Poucas semanas depois parei de beber e de fumar.
Comecei a recuperar a minha auto-estima.
Me distanciei, alegremente, da depressão.
Como nos sentimos vitoriosas!
Como é bom acordar e nos dizer:
"Você está se achando novamente.
Você é mesmo a guerreira que, de uns tempos prá cá decidiu se negar. Se arrasar. Se reduzir ao que a vida lhe impôs de forma brutal.
Como é bom saber quem é você, outra vez".
O fato de parar de beber passou a me distanciar ainda mais do meu marido.
Só quem já passou por situações parecidas, ou está passando, sabe exatamente o que eu quero dizer.
É um contentamento inigualável.
Manter as rédeas de nossas próprias vidas é para quem quer e pode. Não é para qualquer um. Mas, é importante ter em mente que qualquer um pode, desde que se agarre às armas certas.
Tenha o acompanhamento necessário e, sobretudo, creia e consiga recuperar a confiança em si mesma.
Não duvide.
Você pode sim, readquirir qualquer que seja a força.
Ela está aí dentro de você. Basta que consiga abrir os olhos, vê-la.
E aí está o nosso grande desafio:
querer ver.
Visualizar o quanto podemos.
À partir desse reencontro tudo fica mais iluminado e fortalecido.
Esta força não podemos delegar a ninguém. Só a nós mesmas.
E todas somos capazes.
Não hesite.
Experimente e constatará que não estou contando nenhuma estória da Carochinha.
Não se acanhe de pedir socorro médico, de um grupo de auto-ajuda, de uma IGREJA. Muitas vezes a força vem de onde menos esperamos.
Não considere sua condição social, seu grau de intelectualidade, sua noção científica do mundo… Em muitas vezes somos pegas por uma força que desconhecemos e que consideramos medíocre e burra.
Não.
Não despreze nenhuma oportunidade de ajuda. O que você precisa é encontrar a sua força real.
Algo que a impulsione.
Que lhe dê o alerta da auto-estima.
Que lhe diga:
Você pode.
É importante você saber que:
poucas mulheres identificam o abuso do álcool como sua principal doença. Entretanto, pesquisas como a do American College of Women's Health Physician, de maio de 1999, mostram que, existem, hoje, seis milhões de mulheres alcoólatras, só nos Estados Unidos. Quase 10% delas têm menos de 30 anos de idade e a proporção é maior em mulheres depois dos 40. E o que acontece aqui conosco?
Enquanto os homens bebem com mais frequência na juventude, entre 21 e 34 anos, o hábito da bebida nas mulheres continua crescendo na meia idade, de 50 a 64 anos.
Até mesmo a chamada "bebida moderada" pode ser prejudicial para as mulheres. Isto porque o volume corporal da mulher é geralmente menor que o do homem assim como a proporção corporal - gordura e músculo- e o metabolismo hepático.
Isto quer dizer que se uma mulher e um homem bebem a mesma quantidade de álcool a mulher vai ficar alcoolizada primeiro e o álcool vai levar mais tempo para sair de seu organismo.
Saiba você que a negação, o dizer não a si própria, é a principal razão das mulheres não procurarem um médico e pedir socorro. Mas este não é o único motivo do crescimento do alcoolismo.
A vergonha de se confessar alcoólatra é muito forte.
É fácil encontrar uma razão para nos isolarmos diante deste "fracasso", o de não resistir à bebida.
As desculpas aparecem rápido feito uma flecha: - Venho de uma família de alcoólatras.
- Só bebo para dormir, para relaxar, para me sentir mais sexy, para anestesiar meus sentimentos dolorosos…
E muitas, muitas outras respostas, são usadas em nome do "não posso sair dessa" e do "quem sabe da minha vida, sou eu".
É raro encontrarmos, nos consultórios, uma mulher que diga, sem antes ser insistentemente questionada, que depende do álcool para conseguir ultrapassar, ou reduzir, os problemas da vida.
Guarde essas letras: C A C O
Elas significam:
C - cortar
A - aborrecer
C - culpa
O - olhos
CACO é o nome aportuguesado de um teste criado pela Women's for Sobriety - Mulheres pela Sobriedade - largamente usado pelos profissionais da saúde nos Estados Unidos, para avaliar até onde você está dependente de álcool, ou não.
Bastam duas ou três respostas "sim" , às perguntas abaixo, para que o diagnóstico confirme, em 80, 90% dos casos, que você é uma séria candidata a se tornar uma dependente do álcool.
Responda às perguntas:
1. Você, alguma vez, já sentiu que tem que CORTAR a bebida alcóolica?
2. As pessoas já lhe ABORRECERAM ao criticarem seu hábito de beber?
3. Você já se sentiu mal ou CULPADO a respeito do seu hábito de beber?
4. Você já começou a beber, já tomou o seu primeiro drink, logo no início do seu dia, pela manhã, para se livrar da sua ressaca, que é o seu abridor de OLHOS?

Faça a sua avaliação e pense bem sobre a sua conclusão.
Não está na hora de procurar um médico ou um grupo de ajuda?
Responda a você, assim que puder.
O hábito de beber sozinha é comum e altamente perigoso. Esta vontade aparece, sobretudo, quando se passa por uma grande perda, seja ela material ou afetiva.
Fique atenta.
Felizmente os grupos de auto ajuda religiosos, ou não, estão espalhados por todo o país. Ninguém precisa saber que você precisou deles.
Não é sem razão que se chamam ANÔNIMOS.
Na página seguinte, continuarei a contar a você como consegui me livrar, para sempre, dessa companhia desastrosa e altamente perversa.

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